18 de jun. de 2014

Jogando fora de casa no Brasil

“O Brasil não tem os melhores jogadores, mas joga em casa”, alertam os torcedores para explicar o favoritismo da seleção na Copa do Mundo 2014. Mas o jogo de ontem mostrou uma realidade difícil de engolir. Existem times que podem mudar a lógica do jogo em casa.

Primeiro porque um dos aspectos de jogar em casa é estar no seu próprio campo, que você conhece. Pode parecer estranho e simples dizer: “todos os campos de futebol são iguais”, mas existe sim o conhecimento do gramado dos que estão acostumados a jogar nele.

Acontece que em Copa do Mundo o campo é o mesmo para todos. Os jogadores brasileiros não têm experiência nesses campos pois jogam na Europa, e porque alguns deles são novos.  

O fator campo morre, mas sobra a torcida, mais importante que o conhecimento do gramado. Entretanto, ontem tivemos um pouco do que pode acontecer nessa Copa do Mundo. Os mexicanos estavam em menor número, mas souberam torcer mais. Gritavam mais alto, tinham cânticos ensaiados e faziam uma festa maior, enquanto brasileiros ficavam no “eu sou brasileiro, com muito orgulho...”

Nas estreias de Chile e Argentina, minha sensação foi: “a Copa do Mundo está em festa não porque é no Brasil, mas porque é na América do Sul”. Os sul-americanos são apaixonados por futebol, e tem os jogos do mundial do lado de casa. Dá para ir de ônibus! E provavelmente vai demorar para Copa voltar ao continente. Foram necessários 36 anos de distância para o torneio voltar ao continente, entre a Copa da Argentina, em 1978, e a de 2014.

Se a final tão esperada aconteça em 2014, Brasil x Argentina, é possível que nossos hermanos tenham mais torcedores no Maracanã.

E se o Brasil chegar até lá! Pois a torcida precisa ajudar, e não conseguiu apoiar durante os momentos ruins nos dois primeiros jogos. E o grito dos torcedores podem mudar os jogos. Para lembrar duas conquistas brasileiras recentes, Corinthians e Atlético MG utilizaram a força das suas torcidas para vencer a Libertadores. Os jogos em casa eram uma festa, e não tenha dúvida que influenciou o resultado em campo.

O Brasil precisa disso, e até agora não teve. Por quê? Tenho duas hipóteses. Os torcedores presentes no estádio e a separação entre torcida e seleção brasileira.

A separação
Seja lá qual for o motivo (existem várias explicações para isso), o Brasil joga a maioria dos amistosos em terras estrangeiras. Londres e Estados Unidos, por exemplo, e países mais pobres, como questão de causa social.

Os jogos do Brasil no Brasil apenas em Eliminatórias, que esse teve esse ano. Isso causa uma separação entre torcedores e seleção. Fora que os jogos acontecem em pleno dia de trabalho, pela tarde. Não foram poucas as vezes que só descobri o resultado da partida ao chegar em casa.

Os torcedores não estão acostumados a torcer pelo Brasil e, por isso, em jogos aqui, não sabem muito bem como fazer. Não tem gritos, não tem canções específicas, não tem tambor...

A separação é agravada pelo fato dos jogadores, quase todos, trabalharem na Europa. Todos sabem que a paixão futebolística está nos clubes, e se estende para os atletas do clube. Se tivessem jogadores do Flamengo, Corinthians, Grêmio, Cruzeiro e outros, a torcida para o Brasil seria maior. (Só para deixar claro, não estou pedindo Hernane na seleção!)

Tudo isso somada a bagunça que a gestora da seleção, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), causa no campeonato brasileiro e nos clubes.

Quem foi ao estádio
Se a Copa do Mundo acontece no quintal de casa, por que não ir ao jogo? Todo mundo quer participar da maior festa do futebol, e tem todo direito disso. Mas os ingressos muitas vezes vão para as mãos de quem não está acostumado a ir para o estádio, e estão lá para gritar quando o Brasil joga bem, e não quando precisa melhorar na partida.

Do outro lado, estão os sul-americanos, mexicanos e ingleses (para citar as melhores torcidas que eu vi até agora) que viajam de seus países só para acompanhar a seleção nacional. Guardar dinheiro por um tempo, viajar, muitas vezes como mochileiro, e acompanhar o time é coisa de apaixonado por futebol, aquele que vai para fazer a festa dentro do estádio.

No jogo de ontem, em um momento que Daniel Alves carregava a bola pela lateral, a câmera mostrou a torcida mais perto do gramado. No início, brasileiros sentados, parados, olhando o jogo, como se estivessem assistindo tênis, onde qualquer barulho pode atrapalhar os atletas. A câmera continua e mostra mexicanos pulando e gritando. A imagem continua e mostra mais brasileiros assistindo tênis.

Não estou dizendo que estes torcedores não merecem o ingresso, pois entraram na fila virtual (eu acho) como todos os outros e pagaram o ingresso. Espere desses torcedores gritos em gols e se o Brasil vencer o jogo, mas não espere apoio em momentos difíceis.  


Para voltar a jogar em casa, os torcedores precisam entender que fazem a diferença se cantarem em conjunto, se mostrarem apoio do começo ao fim e se gritarem pelo Brasil a pleno pulmões. Ou torcer para enfrentarmos uma seleção com menos torcedores no Brasil.

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