15 de abr. de 2014

Liga dos Campeões Estadual

Eu e os 450 pagantes de Bonsucesso e Flamengo temos uma certeza: algo precisa ser feito nos campeonatos estaduais. Ok, tudo bem, tem muita gente que também faz parte do nosso clube, o Por-Favor-Mudem-Esses-Estaduais-Sem-Graça. Que, para deixar claro, não é o Acabem-Com-Essas-Porcarias-De-Campeonatos. Eu ainda consigo ver um pouco (quase mínimo) de valor, e uma projeção interessante para o futuro. É possível desenvolver um produto (sem querer me fingir de especialista de marketing) que seja bom para todo mundo, clubes grandes, médios e pequenos. Essa proposta é para estaduais com times grandes, pois esses são os piores. Os grandes não gostam de jogar, ainda assim são sempre os finalistas. Para os pequenos, também não vale tanto. Quando um pequeno resolve roubar a cena, como o Santo André em 2010, não resulta em nada futuro para o clube. Hoje, quatro anos depois, o time do ABC paulista está no Paulista A2. Do que adianta ter feito aquele grande campeonato? Precisamos de algo novo! Mas antes de pensar em uma proposta para melhorar esses torneios, é preciso apagar algumas certezas que os “especialistas” em campeonatos estaduais, as federações, têm. A primeira:

Flamengo e Bonsucesso jogaram para um público ridículo.

É preciso ter mais jogos para ter mais renda. A lógica dos organizadores é: se eu lucro R$ 100 com um jogo no ano, então se eu fizer quatro jogos o lucro vai ser de R$ 400 no ano. Faz sentido no papel, mas a realidade é diferente. Primeiro que estamos tratando de atletas fazendo esforço físico, em nível profissional. Não adianta abusar e achar que os jogadores de futebol podem dar um espetáculo em um jogo, sendo que eles ainda se recuperam da partida que aconteceu há três dias. Uma vez, tudo bem. Mas constantemente é complicado. Quarta-domingo-quarta-domingo-quarta-domingo-quarta-domingo não dá. É possível jogar, mas não no melhor nível. O que resulta em partidas incrivelmente chatas, mesmo quando temos a perspectiva de um time grande golear um pequeno.

E nem é preciso pedir isso dos jogadores. Sabe qual é a maior liga de esportes do mundo? A NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos. Eles têm um lucro de quase US$ 1 bilhão, mais de US$ 400 milhões maior que a segunda, a Premier League. Eles arrecadam tanto dinheiro porque têm o maior contrato de transmissão de TV, de US$ 1,9 bilhão. Vamos pensar na lógica dos “especialistas” em estaduais: “eles devem ter uns 80 jogos por temporada, para lucrar tanto!”. Calma, vou checar. Achei uma informação aqui que acho que está errada, vou continuar procurando. Espera aí, é isso mesmo. Cada time faz apenas 16 jogos na temporada, e para ser campeão, 20 jogos.  Isso lotando os estádios e tendo as maiores audiências da televisão americana. Então é possível lucrar e fazer um campeonato interessante, mesmo com poucos jogos! Só para citar mais dois campeonatos com poucos jogos e muito lucro, não sei se vocês conhecem: Copa do Mundo (7 jogos para ser campeão) e Liga dos Campeões (13 jogos para ser campeão¹).

Como eles fazem essa mágica? Com um planejamento, plano de marketing, propaganda, estrutura, organização e um monte de outras coisas da esfera de negócios que aqui não cabe detalhar. Um ponto pode ser destacado, que eu vou chamar de Fator-Final-da-Copa-do-Mundo. Se China e Honduras um dia fizerem uma final de Copa do Mundo, o preço não vai ficar mais baixo e não vai esvaziar o estádio. Sabe por quê? A partida que decide o campeão do mundo acontece de quatro em quatro anos. Como perder um evento que é tão raro e tão importante? Repetindo, não é só isso. Tem planejamento, marketing, etc. Mas é inegável pensar que quanto mais raro é um jogo, maior o seu Fator-Final-da-Copa-do-Mundo.  Mesmo que outros campeonatos, como a Premier League (38 jogos), NBA (no mínimo 98 jogos para ser campeão) e MLB (mais de 100 jogos) tenham tantos jogos e faturem bastante, é preciso pensar que não adianta fazer um estadual com 38 jogos, sendo que o Campeonato Brasileiro, o mais importante, também tem muitos jogos.

O importante aqui é que a lógica quanto mais jogos mais renda nem funciona para o Estadual. Com o custo de operação de um jogo, tem time que perde dinheiro ao jogar nesses torneios. São dias em que a renda do jogo é R$ 3.000 e o custo para jogar é R$ 5.000. Nem sempre é assim. Mas também não é viável um time grande, e mesmo pequeno, jogar toda essa maratona, desgastar o time para as principais competições, para lucrar quase nada. Imagine você trabalhar 18 horas por dia em dois empregos para ganhar R$ 900, não vale a pena. Se os bancos vazios de um jogo tivessem pessoas, era possível cancelar outro jogo. Explicando. Corinthians joga para 18 mil e 19 mil em dois jogos diferentes. Sendo a capacidade do Pacaembu 40 mil pessoas, o jogo domingo-quarta poderia ser um só, com estádio lotado e jogadores descansados para a próxima rodada. E isso pois estamos falando de um dos times que mais levam torcedores aos estádios. Eu não quero entrar no assunto São Paulo com estádio de 60 mil lugares e oito mil de média.

Não vou entrar no assunto, mas a foto explica tudo.

Todos os grandes precisam se enfrentar. Toda fórmula estranha de campeonato estadual que você encontrar por aí tem um único objetivo: colocar todos os grandes frente a frente na primeira fase e, se possível, fazer com que eles se enfrentem na semifinal e final. Tudo com o objetivo de trazer mais audiência. Então tudo o que eles querem é que os pequenos não façam grandes coisas no campeonato e tudo o que eles falam é que o campeonato tem os grandes para ajudar os pequenos.

A ideia é que clássicos atraem mais pessoas. Com certeza! Mas não são os clássicos que atraem os maiores públicos, são os bons jogos. Antes de enfrentar o Palmeiras, o Santos jogou em casa com Oeste, Bragantino, Atlético Sorocaba, Comercial, Botafogo (SP), Corinthians e XV de Piracicaba. Levanta a mão quem está disposto a assistir Santos x Oeste, com ingresso caro, tendo que pagar um flanelinha ao estacionar, e se quiser tomar um gole de água, vai ter que pagar uns R$ 4²? Ah, lembre-se que você pode economizar e assistir Santos e Palmeiras no jogo seguinte. Um jogo entre um time de série A e um que nem participa da série D ou está na série C não é atrativo, ainda mais não valendo nada. O Corinthians perdeu do São Bernardo, Santos, São Paulo, Ponte Preta e Bragantino, empatou mais três jogos, e ainda assim chegou com chances de classificação na penúltima rodada. O São Paulo teve quatro derrotas e três empates e ainda assim se classificou em primeiro no seu grupo. Ou seja, um jogo entre Flamengo e Bonsucesso no meio do campeonato na fase de pontos corridos não vale nada. Porque o torcedor pagaria R$ 200 (ingressos e outros custos) para levar a família para assistir esse jogo? A questão é deixar todos os jogos do Paulistão/Carioca importantes, para os grandes e para os pequenos.  Ao invés disso, eles fazem o mais fácil e programam jogos entre os grandes na primeira fase, e criam um regulamento para clássicos na segunda fase.

Só para deixar claro: eu não sou doido de pensar que um jogo entre Vasco e Friburguense em um campeonato novo, com melhor regulamento, é mais atrativo que Vasco e Flamengo no formato do Carioca atual. Meu ponto aqui é deixar de lado que os clássicos na primeira fase sejam tão essenciais, e que o fato de as federações inventarem formas de colocar os grandes frente a frente na primeira fase faz os estaduais terem mais datas do que o necessário. E serve de desculpa para os grandes gênios que organizam os campeonatos nem pensarem em formas de diminuir o número de jogos. O que eu quero falar é: se você deixar os jogos mais interessantes e mais importantes, os grandes não precisam se enfrentar.

Os grandes precisam enfrentar os pequenos. O número de jogos nos campeonatos estaduais pode ser explicado pelos dois primeiros tópicos desse texto, mas acho que o principal motivo é esse. Os gênios das federações acham que fomentar o futebol no interior dos estados é levar os times grandes para jogar no interior. A lógica é que o público das cidades menores pague caro para ver o Palmeiras, Flamengo, Fluminense jogando no estádio perto do quintal de casa. A renda arrecadada ajuda o clube pequeno a pagar as contas por um tempo. De novo, a medida mais simples e enganosa.

Os números estão do lado deles. Analisando três times pequenos e seus jogos em casa, a renda em jogo contra grandes é infinitamente maior do que entre clubes do mesmo nível. O Mogi Mirim fez oito jogos em casa. Somando a renda de dois contra grandes: R$ 97.655,75. Agora das outras seis partidas: - R$ 47.407,50. Isso mesmo, quase 50 mil reais de prejuízo. Com isso, o time do Rivaldo teve R$ 50.248,25 de lucro jogando o Campeonato Paulista. Bom né? Mas compensa? Desgastar os times grandes, lotar o calendário do futebol brasileiro, deixar os pequenos jogarem só no primeiro semestre, para pagar um mês de salário, e as vezes nem isso. Em outros times, o lucro é maior, mas ainda assim não o suficiente. Contando apenas a primeira fase, o Ituano lucrou R$ 3.634,54, mas só jogou com um grande na casa dele. Outro pequeno que se destacou, o Penapolense, teve lucro de R$ 506.157,97. Bem maior que os outros exemplos, mas ainda assim paga os salários e nem sempre joga no segundo semestre.

RENDA DOS JOGOS EM CASA
Mogi Mirim
vs Corinthians - R$ 45.770,24
vs Comercial - R$ -6.461,87
vs Paulista - R$ -7.324,10
vs Santos - R$ 51.885,51
vs Ituano - R$ -9.886,52
vs Audax - R$ -8.808,03
vs Sorocaba - R$ -6.914,23
vs XV Piracicaba - R$ -8.012,75
Ituano
vs Penapolense - R$ -69,71
vs Sorocaba - R$ 1.339,16
vs Linense - R$ -3.871,16
vs Bragantino - R$ -5.074,77
vs São Bernardo - R$ 3.814,36
vs Santos - R$ 11.043,32
vs Portuguesa - R$ -3.546,66
Penapolense
vs Corinthians - R$ 283.031,59
vs XV Piracicaba - R$ 4.946,56
vs Ponte Preta - R$ 19.998,84
vs Portuguesa - R$ 16.890,11
vs Santos - R$ 170.384,54
vs São Bernardo - R$ 1.032,82
vs Mogi Mirim - R$ 1.445,80
vs Bragantino - R$ 8.427,71

Quase compra de votos para se eleger a presidente da Federação de Futebol de São Paulo. Os clubes escolhem o dirigente e a maioria dos times é pequeno e do interior. Nas eleições para prefeito das cidades, os canalhas que compram votos, geralmente fazem por R$ 50 para as pessoas mais humildes. Para esses eleitores, essa quantia, só por um voto, é coisa de outro mundo. Acho que é o que acontece com os dirigentes dos pequenos quando fazem a comparação acima. O Mogi Mirim teve prejuízos em todos os jogos, menos contra os grandes. Os cartolas do clube devem se abraçar, sorrir, estourar champanhe quando comparam os números. É coisa de outro mundo. “Nós? R$ 45.770,24?! Traga o melhor champanhe e um charuto cubano, que nós vamos comemorar”.  “Como não votar no dirigente que fez isso pela gente.” E assim, os gênios das federações se mantêm no poder. O voto de um clube pequeno vale o mesmo que do clube grande.

Marco Polo Del Nero
Agora, pensar nas razões que levam o público para os estádios, isso eles não fazem. O primeiro motivo e mais óbvio é ver os grandes jogadores. Luís Fabiano, Jadson, Ralf, Cícero, Arouca, Alan Kardec, Rogério Ceni trazem mais público que os outros jogadores. Só por isso. Com certeza, não é para ver um bom jogo. Até porque assistir esses jogos é uma tristeza. Um time que tenta entrar em uma retranca, e quase nunca consegue. Jogos terminam 0x0, 1x0, 2x0, 2x1, após um futebol de péssima qualidade. Na maioria das vezes, o time pequeno fica acuado, e o grande não está preparado fisicamente, sendo começo de temporada. Ingredientes para o mau futebol. Então os atletas são o grande apelo. O que fazer? Construir um jogo de grande apelo. Se cada jogo tiver uma importância de quase final de campeonato, cada jogo pode valer uma classificação, como é na Libertadores, Copa do Mundo e Liga dos Campeões ³. Se ficar na cabeça que os grandes precisam enfrentar os pequenos no interior, nunca vai se mudar essa mentalidade.

A PROPOSTA
Então partimos com essa missão: transformar os jogos do paulista em grandes eventos. Vamos nos basear no seguinte: a Liga de Futebol Americano (NFL) tem poucos jogos, dura pouco tempo, e ainda assim tem uma das maiores competições esportivas. Assim como a Liga dos Campeões e a Copa do Mundo. Com a raridade dos jogos, as partidas ficam mais importantes. Cada jogo precisa valer uma classificação, ou o rebaixamento. Vocês já sabem aonde isso vai levar, certo? O título do texto entregou a resposta.

O próprio movimento do Bom Senso F.C. sugeriu copiar o modelo da Copa do Mundo para fazer o Paulista. Concordo! Com quase tudo. Dessa forma, é bom para os times grandes, e continua ruim para os pequenos. Os times fazem uns 6, 7 jogos, outros vão fazer só três. Embora a proposta fale de outras competições e calendário para o ano todo, não acho justo diminuir tanto o número de jogos. E outra coisa, na fase de grupos, seria interessante colocar grandes no interior, como foi mostrado nas rendas de times pequenos. O modelo ideal seria o da Liga dos Campeões, que tem o mesmo formato do mundial da FIFA, mas com jogos de ida e volta. A Copa do Mundo dura um mês e a Liga dos Campeões, pela lógica, poderia durar dois meses (é espaçada para durar um ano). Hoje, o campeonato é jogado de janeiro (final do mês) a abril, quatro meses, com 19 jogos. Copiando a Liga dos Campeões, o Paulista e o Carioca poderiam ser jogados em março e abril, dando mais espaço para pré-temporada, com 13 jogos para quem disputar o título, sendo a maioria em fase de mata-mata, logo, mais atrativa.

Uma das alternativas antigas para diminuir o número de jogos, era diminuir o número de times na Série A do Paulista. A resposta da federação? São Paulo tem muitos times e teria que agregar o máximo de clubes no nível mais alto. Pronto! Com o modelo da Liga dos Campeões Paulista, seriam 32 clubes jogando a série A, ao invés dos 20 usuais. Com o novo formato, mais times poderiam participar, mais times teriam a chance de ser campeões. Seriam oito grupos, e os times com mais história no Estado seriam cabeças-de-chave. A tabela teria que ser feita para que os grandes só se encontrem na semifinal, pois certas coisas não podem mudar. Dos oito grupos, dois se classificam. Depois, oitavas-de-final, quartas, semi e a grande final em jogo único, no Pacaembu, como a Copa da Inglaterra, que encerra em Wembley.

São oito grupos com quatro clubes cada, sendo que dois se classificam. Cada time teria seis jogos, sendo três em casa. Todos começariam com chance de classificação, mesmo aqueles com clubes grandes no grupo. E cada jogo, principalmente em casa, seria importante. Clubes pequenos já venceram a Copa do Brasil. O Chelsea já derrotou o Barcelona na Liga dos Campeões e venceu o torneio. O Liverpool terminou em quinto em 2005 na Premier League, e ainda assim levou a Champions. Exemplos, sem contar as zebras que já aconteceram na Libertadores. Em mata-mata, o resultado fica imprevisível. Para chegar a essa fase, o time pequeno precisaria vencer pelo menos as três em casa. Três jogos em casa. Só. Para o torcedor, cada jogo valeria a chance de ir jogar no mata-mata. A chance de ser uma zebra e ser campeão paulista. Com esse apelo, os times e até a própria federação podem fazer campanhas publicitárias para vender o campeonato.

Com a Liga dos Campeões Paulista, 32 clubes estariam na disputa. Então seriam 32 clubes na primeira divisão? Não. E aqui se resolve mais um problema: calendário para time pequeno. O estado ia ser divido em regiões, que teriam no segundo semestre uma competição própria, de pontos corridos ou não, para decidir quem ia entrar nos grupos. Quem disputa as séries A, B e C já estariam classificados. Os participantes da Série D podem alternar jogos entre as competições. Até porque, se um deles for desclassificado antes da final do torneio nacional, também ficaria sem jogos. Não haveria rebaixamento, o que pode ser uma coisa boa. Sem a pressão contra resultados ruins, os times pequenos podem arriscar mais. Pode não ser a proposta que vai mudar o futebol brasileiro, mas tenho certeza que é interessante e, se organizada, pode trazer mais público e mais visibilidade para os estaduais. Viu? Dá para fazer algo bom mesmo sem pensar no Mais Jogos Mais Renda (nome de programa do Governo Federal), todos os grandes se enfrentam e grandes precisam enfrentar os pequenos.

¹A Liga dos Campeões tem uma fase anterior a de grupos, onde times de ligas menores e times que terminaram em quarto em ligas grandes disputam. Então, mesmo sendo difícil, é possível ganhar a competição jogando 18 jogos.

² Não sei se é esse o preço da água, mas todos sabemos como os produtos dentro de estádio são superfaturados.

³ Não sou contra pontos corridos, só para deixar claro. No Brasileirão, Premier League, La Liga, cada jogo também tem grande importância, principalmente quando dois times fortes disputam o título. Mesmo jogando contra um time mais fraco, o Chelsea precisa vencer porque, provavelmente, o City vai ganhar. Então cada jogo é grande. O mesmo vale para quem disputa o rebaixamento. No Paulista, a diferença dos times e a quantidade de jogos tira isso. Raramente acontece de um time grande sair nessa fase, mesmo se perder dois jogos para pequenos, e empatar outros.

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