Uma confusão
se desenhava na sala de estar de uma pequena casa, de apenas uma sala de
estar/jantar, um quarto, uma cozinha e dois banheiros na zona norte do Rio de
Janeiro. Era aniversário de um ano de casamento de Gegê e Maria Lúcia, que está
grávida de três meses. Ela queria uma comemoração em um restaurante ‘chique’,
de ‘gente rica’, com ‘comida boa de verdade’, para usar as palavras dela. Para
a mulher de Gegê, um ano de casamento precisa ser comemorado da melhor forma, assim
como se celebra aniversário de um ano dos filhos, mesmo que ela não tivesse
feito nenhuma. Talvez por estar grávida, seu instinto maternal tenha dado essa
ideia para ela.
- É preciso
ser celebrado [...] em um restaurante chique, de gente rica [...] nada que use
balança para mostrar o preço, nem esteja em uma praça de alimentação do
shopping – disse Maria Lúcia com os braços cruzados, unhas recém pintadas e
pronta para ir ao cabelereiro. Ela acreditava que Gegê preparava uma surpresa
para ela. Foi surpreendida pelo pedido do marido para suspender o encontro.
- Eu estou
pronto para te dar tudo isso, meu amor. Mas na semana que vem – respondeu Gegê,
quase que de joelhos, implorando.
- Eu quero
hoje!
O homem,
agora sim de joelhos e com os olhos cada vez mais tristes insistia com ela:
- O Flamengo
precisa de mim!
A primeira
foto de Gegê, com só dois dias de vida, tinha o pequeno Wellison, que viria a
ser Gegê dezoito anos depois, coberto em uma manta com as cores vermelha e
preta, fruto de um guarda-roupa repleto de roupinhas rubro-negras, todas
costuradas por sua mãe, costureira por profissão e fanática pelo Flamengo nas
horas vagas e nas horas de trabalho de vez em quando. O pai de Gegê não gosta
de futebol. Naquela noite de 20 de agosto, um ano depois do casamento de
Wellison e Maria Lúcia, o Flamengo jogaria com o Atlético Mineiro no Maracanã e
precisava vencer para ficar longe da “confusão”, nome dado por Vanderlei
Luxemburgo à zona de rebaixamento para Série B, e que como grande fã do
treinador, Gegê adotou o termo na hora. “O Flamengo não pode voltar para
confusão!”, dizia o rapaz durante a discussão com a mulher. Gegê explicava para
Maria Lúcia que o time não era bom, que os jogadores precisavam da torcida, que
o Luxemburgo falou em rede nacional para os torcedores comparecerem ao estádiu,
que o canto da arquibancada fazia diferença, que ele lá fazia a diferença, que
o Flamengo jogaria com 12.
Para os
amigos de trabalho de Gegê fazia um certo sentido ele apoiar o time, mas a
preferência sempre era da esposa, ao que ele respondia: - Eu sei, mas quando o
Flamengo está na confusão é diferente. Para as amigas de Maria Lúcia, lateral é
atacante, goleiro é juiz e o impedimento é inexplicável. Era inaceitável trocar
a mulher pelo futebol. – Não é a mulher, é uma noite. Não é pelo futebol, é
pelo time – dizia ele. Para os companheiros de torcida, inaceitável era a
mulher não entender a importância de ir ao estádio em um momento tão delicado. –
Eu sei pessoal, mas ela não entende - respondia Gegê.
Ele então
teve uma ideia: comemorar o aniversário de casamento com ela no estádio. Um
pouco de papo aqui, uma conversa ali, uns “eu prometo” acolá, mais uns “eu
farei” e pronto, estava decidido. A celebração de um ano do casal Gegê e Maria
Lúcia seria no Maracanã. Como ela aceitou? Gegê fez a seguinte aposta: se o
Flamengo ganhasse, ficava provado que era importante ele ir quando o time
precisava e ele estava livre para ir quando precisasse. Se o Flamengo perdesse,
nunca mais Gegê perderia uma data importante para ir a jogos do rubro-negro. E
por datas importantes, Maria Lúcia queria dizer aniversário de casamento, de
namoro, da mãe dela, das irmãs dela, formaturas, comemorações especiais e
quando ela decidisse por um novo visual. Ele aceitou, e eles foram. Gegê com
sua camisa surrada do Flamengo, para “dar sorte”, e ela com a mesma roupa que
havia escolhido para celebrar o casamento.
O Flamengo
venceu por 2x1, e naquele momento ela descobriu que realmente a torcida fazia a
diferença, mesmo sem entender nada de futebol. Dali para frente, Gegê tinha o
passe livre para assistir aos jogos, contato que ele provasse a importância da
vitória para o Flamengo. Maria Lúcia
continuava sem entender nada do esporte, mas depois daquela noite escolheu um
time para torcer: o Atlético Mineiro.
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