22 de ago. de 2014

O aniversário de casamento de Gegê e Maria Lúcia

Uma confusão se desenhava na sala de estar de uma pequena casa, de apenas uma sala de estar/jantar, um quarto, uma cozinha e dois banheiros na zona norte do Rio de Janeiro. Era aniversário de um ano de casamento de Gegê e Maria Lúcia, que está grávida de três meses. Ela queria uma comemoração em um restaurante ‘chique’, de ‘gente rica’, com ‘comida boa de verdade’, para usar as palavras dela. Para a mulher de Gegê, um ano de casamento precisa ser comemorado da melhor forma, assim como se celebra aniversário de um ano dos filhos, mesmo que ela não tivesse feito nenhuma. Talvez por estar grávida, seu instinto maternal tenha dado essa ideia para ela.

- É preciso ser celebrado [...] em um restaurante chique, de gente rica [...] nada que use balança para mostrar o preço, nem esteja em uma praça de alimentação do shopping – disse Maria Lúcia com os braços cruzados, unhas recém pintadas e pronta para ir ao cabelereiro. Ela acreditava que Gegê preparava uma surpresa para ela. Foi surpreendida pelo pedido do marido para suspender o encontro.

- Eu estou pronto para te dar tudo isso, meu amor. Mas na semana que vem – respondeu Gegê, quase que de joelhos, implorando.

- Eu quero hoje!

O homem, agora sim de joelhos e com os olhos cada vez mais tristes insistia com ela:

- O Flamengo precisa de mim!

A primeira foto de Gegê, com só dois dias de vida, tinha o pequeno Wellison, que viria a ser Gegê dezoito anos depois, coberto em uma manta com as cores vermelha e preta, fruto de um guarda-roupa repleto de roupinhas rubro-negras, todas costuradas por sua mãe, costureira por profissão e fanática pelo Flamengo nas horas vagas e nas horas de trabalho de vez em quando. O pai de Gegê não gosta de futebol. Naquela noite de 20 de agosto, um ano depois do casamento de Wellison e Maria Lúcia, o Flamengo jogaria com o Atlético Mineiro no Maracanã e precisava vencer para ficar longe da “confusão”, nome dado por Vanderlei Luxemburgo à zona de rebaixamento para Série B, e que como grande fã do treinador, Gegê adotou o termo na hora. “O Flamengo não pode voltar para confusão!”, dizia o rapaz durante a discussão com a mulher. Gegê explicava para Maria Lúcia que o time não era bom, que os jogadores precisavam da torcida, que o Luxemburgo falou em rede nacional para os torcedores comparecerem ao estádiu, que o canto da arquibancada fazia diferença, que ele lá fazia a diferença, que o Flamengo jogaria com 12.

Para os amigos de trabalho de Gegê fazia um certo sentido ele apoiar o time, mas a preferência sempre era da esposa, ao que ele respondia: - Eu sei, mas quando o Flamengo está na confusão é diferente. Para as amigas de Maria Lúcia, lateral é atacante, goleiro é juiz e o impedimento é inexplicável. Era inaceitável trocar a mulher pelo futebol. – Não é a mulher, é uma noite. Não é pelo futebol, é pelo time – dizia ele. Para os companheiros de torcida, inaceitável era a mulher não entender a importância de ir ao estádio em um momento tão delicado. – Eu sei pessoal, mas ela não entende - respondia Gegê.

Ele então teve uma ideia: comemorar o aniversário de casamento com ela no estádio. Um pouco de papo aqui, uma conversa ali, uns “eu prometo” acolá, mais uns “eu farei” e pronto, estava decidido. A celebração de um ano do casal Gegê e Maria Lúcia seria no Maracanã. Como ela aceitou? Gegê fez a seguinte aposta: se o Flamengo ganhasse, ficava provado que era importante ele ir quando o time precisava e ele estava livre para ir quando precisasse. Se o Flamengo perdesse, nunca mais Gegê perderia uma data importante para ir a jogos do rubro-negro. E por datas importantes, Maria Lúcia queria dizer aniversário de casamento, de namoro, da mãe dela, das irmãs dela, formaturas, comemorações especiais e quando ela decidisse por um novo visual. Ele aceitou, e eles foram. Gegê com sua camisa surrada do Flamengo, para “dar sorte”, e ela com a mesma roupa que havia escolhido para celebrar o casamento.

O Flamengo venceu por 2x1, e naquele momento ela descobriu que realmente a torcida fazia a diferença, mesmo sem entender nada de futebol. Dali para frente, Gegê tinha o passe livre para assistir aos jogos, contato que ele provasse a importância da vitória para o Flamengo.  Maria Lúcia continuava sem entender nada do esporte, mas depois daquela noite escolheu um time para torcer: o Atlético Mineiro. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário