Eu e os 450 pagantes de Bonsucesso e Flamengo temos uma
certeza: algo precisa ser feito nos campeonatos estaduais. Ok, tudo bem, tem
muita gente que também faz parte do nosso clube, o
Por-Favor-Mudem-Esses-Estaduais-Sem-Graça. Que, para deixar claro, não é o
Acabem-Com-Essas-Porcarias-De-Campeonatos. Eu ainda consigo ver um pouco (quase
mínimo) de valor, e uma projeção interessante para o futuro. É possível
desenvolver um produto (sem querer me fingir de especialista de marketing) que
seja bom para todo mundo, clubes grandes, médios e pequenos. Essa proposta é
para estaduais com times grandes, pois esses são os piores. Os grandes não
gostam de jogar, ainda assim são sempre os finalistas. Para os pequenos, também
não vale tanto. Quando um pequeno resolve roubar a cena, como o Santo André em
2010, não resulta em nada futuro para o clube. Hoje, quatro anos depois, o time
do ABC paulista está no Paulista A2. Do que adianta ter feito aquele grande
campeonato? Precisamos de algo novo! Mas antes de pensar em uma proposta para
melhorar esses torneios, é preciso apagar algumas certezas que os
“especialistas” em campeonatos estaduais, as federações, têm. A primeira:
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| Flamengo e Bonsucesso jogaram para um público ridículo. |
É preciso ter mais
jogos para ter mais renda. A lógica dos organizadores é: se eu lucro R$ 100
com um jogo no ano, então se eu fizer quatro jogos o lucro vai ser de R$ 400 no
ano. Faz sentido no papel, mas a realidade é diferente. Primeiro que estamos
tratando de atletas fazendo esforço físico, em nível profissional. Não adianta
abusar e achar que os jogadores de futebol podem dar um espetáculo em um jogo,
sendo que eles ainda se recuperam da partida que aconteceu há três dias. Uma
vez, tudo bem. Mas constantemente é complicado.
Quarta-domingo-quarta-domingo-quarta-domingo-quarta-domingo não dá. É possível
jogar, mas não no melhor nível. O que resulta em partidas incrivelmente chatas,
mesmo quando temos a perspectiva de um time grande golear um pequeno.
E nem é preciso pedir isso dos jogadores. Sabe qual é a
maior liga de esportes do mundo? A NFL, liga de futebol americano dos Estados
Unidos. Eles têm um lucro de quase US$ 1 bilhão, mais de US$ 400 milhões maior
que a segunda, a Premier League. Eles arrecadam tanto dinheiro porque têm o
maior contrato de transmissão de TV, de US$ 1,9 bilhão. Vamos pensar na lógica
dos “especialistas” em estaduais: “eles devem ter uns 80 jogos por temporada,
para lucrar tanto!”. Calma, vou checar. Achei uma informação aqui que acho que
está errada, vou continuar procurando. Espera aí, é isso mesmo. Cada time faz
apenas 16 jogos na temporada, e para ser campeão, 20 jogos. Isso lotando os estádios e tendo as maiores
audiências da televisão americana. Então é possível lucrar e fazer um
campeonato interessante, mesmo com poucos jogos! Só para citar mais dois
campeonatos com poucos jogos e muito lucro, não sei se vocês conhecem: Copa do
Mundo (7 jogos para ser campeão) e Liga dos Campeões (13 jogos para ser
campeão¹).
Como eles fazem essa mágica? Com um planejamento, plano de
marketing, propaganda, estrutura, organização e um monte de outras coisas da
esfera de negócios que aqui não cabe detalhar. Um ponto pode ser destacado, que
eu vou chamar de Fator-Final-da-Copa-do-Mundo. Se China e Honduras um dia
fizerem uma final de Copa do Mundo, o preço não vai ficar mais baixo e não vai
esvaziar o estádio. Sabe por quê? A partida que decide o campeão do mundo
acontece de quatro em quatro anos. Como perder um evento que é tão raro e tão
importante? Repetindo, não é só isso. Tem planejamento, marketing, etc. Mas é
inegável pensar que quanto mais raro é um jogo, maior o seu
Fator-Final-da-Copa-do-Mundo. Mesmo que
outros campeonatos, como a Premier League (38 jogos), NBA (no mínimo 98 jogos
para ser campeão) e MLB (mais de 100 jogos) tenham tantos jogos e faturem
bastante, é preciso pensar que não adianta fazer um estadual com 38 jogos,
sendo que o Campeonato Brasileiro, o mais importante, também tem muitos jogos.
O importante aqui é que a lógica quanto mais jogos mais
renda nem funciona para o Estadual. Com o custo de operação de um jogo, tem
time que perde dinheiro ao jogar nesses torneios. São dias em que a renda do
jogo é R$ 3.000 e o custo para jogar é R$ 5.000. Nem sempre é assim. Mas também
não é viável um time grande, e mesmo pequeno, jogar toda essa maratona,
desgastar o time para as principais competições, para lucrar quase nada.
Imagine você trabalhar 18 horas por dia em dois empregos para ganhar R$ 900,
não vale a pena. Se os bancos vazios de um jogo tivessem pessoas, era possível
cancelar outro jogo. Explicando. Corinthians joga para 18 mil e 19 mil em dois
jogos diferentes. Sendo a capacidade do Pacaembu 40 mil pessoas, o jogo
domingo-quarta poderia ser um só, com estádio lotado e jogadores descansados
para a próxima rodada. E isso pois estamos falando de um dos times que mais levam
torcedores aos estádios. Eu não quero entrar no assunto São Paulo com estádio
de 60 mil lugares e oito mil de média.
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| Não vou entrar no assunto, mas a foto explica tudo. |
Todos os grandes
precisam se enfrentar. Toda fórmula estranha de campeonato estadual que
você encontrar por aí tem um único objetivo: colocar todos os grandes frente a
frente na primeira fase e, se possível, fazer com que eles se enfrentem na
semifinal e final. Tudo com o objetivo de trazer mais audiência. Então tudo o
que eles querem é que os pequenos não façam grandes coisas no campeonato e tudo
o que eles falam é que o campeonato tem os grandes para ajudar os pequenos.
A ideia é que clássicos atraem mais pessoas. Com certeza!
Mas não são os clássicos que atraem os maiores públicos, são os bons jogos.
Antes de enfrentar o Palmeiras, o Santos jogou em casa com Oeste, Bragantino,
Atlético Sorocaba, Comercial, Botafogo (SP), Corinthians e XV de Piracicaba. Levanta
a mão quem está disposto a assistir Santos x Oeste, com ingresso caro, tendo
que pagar um flanelinha ao estacionar, e se quiser tomar um gole de água, vai
ter que pagar uns R$ 4²? Ah, lembre-se que você pode economizar e assistir
Santos e Palmeiras no jogo seguinte. Um jogo entre um time de série A e um que
nem participa da série D ou está na série C não é atrativo, ainda mais não
valendo nada. O Corinthians perdeu do São Bernardo, Santos, São Paulo, Ponte
Preta e Bragantino, empatou mais três jogos, e ainda assim chegou com chances
de classificação na penúltima rodada. O São Paulo teve quatro derrotas e três
empates e ainda assim se classificou em primeiro no seu grupo. Ou seja, um jogo
entre Flamengo e Bonsucesso no meio do campeonato na fase de pontos corridos
não vale nada. Porque o torcedor pagaria R$ 200 (ingressos e outros custos)
para levar a família para assistir esse jogo? A questão é deixar todos os jogos
do Paulistão/Carioca importantes, para os grandes e para os pequenos. Ao invés disso, eles fazem o mais fácil e
programam jogos entre os grandes na primeira fase, e criam um regulamento para
clássicos na segunda fase.
Só para deixar claro: eu não sou doido de pensar que um jogo
entre Vasco e Friburguense em um campeonato novo, com melhor regulamento, é
mais atrativo que Vasco e Flamengo no formato do Carioca atual. Meu ponto aqui
é deixar de lado que os clássicos na primeira fase sejam tão essenciais, e que
o fato de as federações inventarem formas de colocar os grandes frente a frente
na primeira fase faz os estaduais terem mais datas do que o necessário. E serve
de desculpa para os grandes gênios que organizam os campeonatos nem pensarem em
formas de diminuir o número de jogos. O que eu quero falar é: se você deixar os
jogos mais interessantes e mais importantes, os grandes não precisam se
enfrentar.
Os grandes precisam
enfrentar os pequenos. O número de jogos nos campeonatos estaduais pode ser
explicado pelos dois primeiros tópicos desse texto, mas acho que o principal
motivo é esse. Os gênios das federações acham que fomentar o futebol no
interior dos estados é levar os times grandes para jogar no interior. A lógica
é que o público das cidades menores pague caro para ver o Palmeiras, Flamengo,
Fluminense jogando no estádio perto do quintal de casa. A renda arrecadada
ajuda o clube pequeno a pagar as contas por um tempo. De novo, a medida mais simples
e enganosa.
Os números estão do lado deles. Analisando três times
pequenos e seus jogos em casa, a renda em jogo contra grandes é infinitamente
maior do que entre clubes do mesmo nível. O Mogi Mirim fez oito jogos em casa.
Somando a renda de dois contra grandes: R$ 97.655,75. Agora das outras seis
partidas: - R$ 47.407,50. Isso mesmo, quase 50 mil reais de prejuízo. Com isso,
o time do Rivaldo teve R$ 50.248,25 de lucro jogando o Campeonato Paulista. Bom
né? Mas compensa? Desgastar os times grandes, lotar o calendário do futebol
brasileiro, deixar os pequenos jogarem só no primeiro semestre, para pagar um
mês de salário, e as vezes nem isso. Em outros times, o lucro é maior, mas
ainda assim não o suficiente. Contando apenas a primeira fase, o Ituano lucrou
R$ 3.634,54, mas só jogou com um grande na casa dele. Outro pequeno que se
destacou, o Penapolense, teve lucro de R$ 506.157,97. Bem maior que os outros
exemplos, mas ainda assim paga os salários e nem sempre joga no segundo
semestre.
RENDA DOS JOGOS EM CASA
Mogi Mirim
vs Corinthians - R$ 45.770,24
vs Comercial - R$ -6.461,87
vs Paulista - R$ -7.324,10
vs Santos - R$ 51.885,51
vs Ituano - R$ -9.886,52
vs Audax - R$ -8.808,03
vs Sorocaba - R$ -6.914,23
vs XV Piracicaba - R$ -8.012,75
Ituano
vs Penapolense - R$ -69,71
vs Sorocaba - R$ 1.339,16
vs Linense - R$ -3.871,16
vs Bragantino - R$ -5.074,77
vs São Bernardo - R$ 3.814,36
vs Santos - R$ 11.043,32
vs Portuguesa - R$ -3.546,66
Penapolense
vs Corinthians - R$ 283.031,59
vs XV Piracicaba - R$ 4.946,56
vs Ponte Preta - R$ 19.998,84
vs Portuguesa - R$ 16.890,11
vs Santos - R$ 170.384,54
vs São Bernardo - R$ 1.032,82
vs Mogi Mirim - R$ 1.445,80
vs Bragantino - R$ 8.427,71
Quase compra de votos para se
eleger a presidente da Federação de Futebol de São Paulo. Os clubes escolhem o
dirigente e a maioria dos times é pequeno e do interior. Nas eleições para
prefeito das cidades, os canalhas que compram votos, geralmente fazem por R$ 50
para as pessoas mais humildes. Para esses eleitores, essa quantia, só por um
voto, é coisa de outro mundo. Acho que é o que acontece com os dirigentes dos
pequenos quando fazem a comparação acima. O Mogi Mirim teve prejuízos em todos
os jogos, menos contra os grandes. Os cartolas do clube devem se abraçar,
sorrir, estourar champanhe quando comparam os números. É coisa de outro mundo.
“Nós? R$ 45.770,24?! Traga o melhor champanhe e um charuto cubano, que nós
vamos comemorar”. “Como não votar no
dirigente que fez isso pela gente.” E assim, os gênios das federações se mantêm
no poder. O voto de um clube pequeno vale o mesmo que do clube grande.
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| Marco Polo Del Nero |
Agora, pensar nas razões que
levam o público para os estádios, isso eles não fazem. O primeiro motivo e mais
óbvio é ver os grandes jogadores. Luís Fabiano, Jadson, Ralf, Cícero, Arouca,
Alan Kardec, Rogério Ceni trazem mais público que os outros jogadores. Só por
isso. Com certeza, não é para ver um bom jogo. Até porque assistir esses jogos
é uma tristeza. Um time que tenta entrar em uma retranca, e quase nunca
consegue. Jogos terminam 0x0, 1x0, 2x0, 2x1, após um futebol de péssima
qualidade. Na maioria das vezes, o time pequeno fica acuado, e o grande não
está preparado fisicamente, sendo começo de temporada. Ingredientes para o mau
futebol. Então os atletas são o grande apelo. O que fazer? Construir um jogo de
grande apelo. Se cada jogo tiver uma importância de quase final de campeonato,
cada jogo pode valer uma classificação, como é na Libertadores, Copa do Mundo e
Liga dos Campeões ³. Se ficar na cabeça que os grandes precisam enfrentar os
pequenos no interior, nunca vai se mudar essa mentalidade.
A PROPOSTA
Então partimos com essa missão:
transformar os jogos do paulista em grandes eventos. Vamos nos basear no
seguinte: a Liga de Futebol Americano (NFL) tem poucos jogos, dura pouco tempo,
e ainda assim tem uma das maiores competições esportivas. Assim como a Liga dos
Campeões e a Copa do Mundo. Com a raridade dos jogos, as partidas ficam mais
importantes. Cada jogo precisa valer uma classificação, ou o rebaixamento.
Vocês já sabem aonde isso vai levar, certo? O título do texto entregou a
resposta.
O próprio movimento do Bom Senso
F.C. sugeriu copiar o modelo da Copa do Mundo para fazer o Paulista. Concordo!
Com quase tudo. Dessa forma, é bom para os times grandes, e continua ruim para
os pequenos. Os times fazem uns 6, 7 jogos, outros vão fazer só três. Embora a
proposta fale de outras competições e calendário para o ano todo, não acho
justo diminuir tanto o número de jogos. E outra coisa, na fase de grupos, seria
interessante colocar grandes no interior, como foi mostrado nas rendas de times
pequenos. O modelo ideal seria o da Liga dos Campeões, que tem o mesmo formato
do mundial da FIFA, mas com jogos de ida e volta. A Copa do Mundo dura um mês e
a Liga dos Campeões, pela lógica, poderia durar dois meses (é espaçada para
durar um ano). Hoje, o campeonato é jogado de janeiro (final do mês) a abril,
quatro meses, com 19 jogos. Copiando a Liga dos Campeões, o Paulista e o
Carioca poderiam ser jogados em março e abril, dando mais espaço para pré-temporada,
com 13 jogos para quem disputar o título, sendo a maioria em fase de mata-mata,
logo, mais atrativa.
Uma das alternativas antigas para
diminuir o número de jogos, era diminuir o número de times na Série A do
Paulista. A resposta da federação? São Paulo tem muitos times e teria que
agregar o máximo de clubes no nível mais alto. Pronto! Com o modelo da Liga dos
Campeões Paulista, seriam 32 clubes jogando a série A, ao invés dos 20 usuais.
Com o novo formato, mais times poderiam participar, mais times teriam a chance
de ser campeões. Seriam oito grupos, e os times com mais história no Estado
seriam cabeças-de-chave. A tabela teria que ser feita para que os grandes só se
encontrem na semifinal, pois certas coisas não podem mudar. Dos oito grupos, dois
se classificam. Depois, oitavas-de-final, quartas, semi e a grande final em
jogo único, no Pacaembu, como a Copa da Inglaterra, que encerra em Wembley.
São oito grupos com quatro clubes
cada, sendo que dois se classificam. Cada time teria seis jogos, sendo três em
casa. Todos começariam com chance de classificação, mesmo aqueles com clubes
grandes no grupo. E cada jogo, principalmente em casa, seria importante. Clubes
pequenos já venceram a Copa do Brasil. O Chelsea já derrotou o Barcelona na
Liga dos Campeões e venceu o torneio. O Liverpool terminou em quinto em 2005 na
Premier League, e ainda assim levou a Champions. Exemplos, sem contar as zebras
que já aconteceram na Libertadores. Em mata-mata, o resultado fica
imprevisível. Para chegar a essa fase, o time pequeno precisaria vencer pelo
menos as três em casa. Três jogos em casa. Só. Para o torcedor, cada jogo
valeria a chance de ir jogar no mata-mata. A chance de ser uma zebra e ser
campeão paulista. Com esse apelo, os times e até a própria federação podem
fazer campanhas publicitárias para vender o campeonato.
Com a Liga dos Campeões Paulista,
32 clubes estariam na disputa. Então seriam 32 clubes na primeira divisão? Não.
E aqui se resolve mais um problema: calendário para time pequeno. O estado ia ser
divido em regiões, que teriam no segundo semestre uma competição própria, de
pontos corridos ou não, para decidir quem ia entrar nos grupos. Quem disputa as
séries A, B e C já estariam classificados. Os participantes da Série D podem
alternar jogos entre as competições. Até porque, se um deles for
desclassificado antes da final do torneio nacional, também ficaria sem jogos.
Não haveria rebaixamento, o que pode ser uma coisa boa. Sem a pressão contra
resultados ruins, os times pequenos podem arriscar mais. Pode não ser a
proposta que vai mudar o futebol brasileiro, mas tenho certeza que é interessante
e, se organizada, pode trazer mais público e mais visibilidade para os
estaduais. Viu? Dá para fazer algo bom mesmo sem pensar no Mais Jogos Mais
Renda (nome de programa do Governo Federal), todos os grandes se enfrentam e
grandes precisam enfrentar os pequenos.
¹A Liga dos
Campeões tem uma fase anterior a de grupos, onde times de ligas menores e times
que terminaram em quarto em ligas grandes disputam. Então, mesmo sendo difícil,
é possível ganhar a competição jogando 18 jogos.
² Não sei
se é esse o preço da água, mas todos sabemos como os produtos dentro de estádio
são superfaturados.
³ Não sou
contra pontos corridos, só para deixar claro. No Brasileirão, Premier League,
La Liga, cada jogo também tem grande importância, principalmente quando dois
times fortes disputam o título. Mesmo jogando contra um time mais fraco, o
Chelsea precisa vencer porque, provavelmente, o City vai ganhar. Então cada
jogo é grande. O mesmo vale para quem disputa o rebaixamento. No Paulista, a
diferença dos times e a quantidade de jogos tira isso. Raramente acontece de um
time grande sair nessa fase, mesmo se perder dois jogos para pequenos, e
empatar outros.